quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Los dioses: El Viento



Eu, que já viajo pelos quatro cantos
Do mundo, vejo o vai-e-vem de vidas
Desde muitas eras então devidas
E polinizo as almas com meus cantos.

Eu que faço em cada face acalanto,
Roçando gentilmente as tuas feridas;
Eu, que assim mesmo: à revelia, já vi das
Tempestades torpes o hediondo canto.

Eu, que sempre trago o orvalho e a brisa,
Y que he puesto em su cara una sonrisa,
Nunca esmolei uma graça da tua boca.

Não anseio por altar, ou respeito,
Ou uma turba em seu louvor rarefeito.
É sério! Não exijo nada em troca...


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Ufania



Primordiais, no mundo há cinco elementos:
O fogo, a água, o ar, o tempo e a terra.
Sonhar lográ-los a cada momento
Impele sempre a humanidade à guerra.

Da obliteração que a sua força encerra,
Dos bens que causam no homem tanto alento,
Das vidas que a água queima e o fogo enterra,
No ar noturno, à terra fria, o gozo lento.

O tempo, em seu poder irrepreensível,
Mostra ao primata – qual deus mais temível -
O animal soberbo que a terra aterra.

O fogo se extingue, a água evapora,
Nos falta o ar e a vida a si devora,
O tempo acaba... só nos sobra a terra.

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terça-feira, 5 de novembro de 2013

Hedonismo



Fausto prazer fecundo, universal,
Desvela da vida: esse vil arcano.
No homem exculpe feições de animal
Ou dão às bestas a guisa de humano?

Faz casa no viver néscio, profano;
Em uns é a semente de todo o mal,
Um ignóbil, pecado primordial,
N’outros: raro bem, ditoso decano.

O prazer é fogo e também é vento,
Ressoa eternamente num momento
Etéreo – Tudo avulta e tudo acalma.

Faz-se um regalo em meio à aflição;
É um dom e uma hedionda maldição;
Pode a vida dar, ou ceifar a alma.


Pecado



Passa soberba, banhada em pecado,
Olhar desdenhoso, riso maroto,
Na mente um mundo totalmente ignoto
E um demônio de estimação do lado.

Queima o olho rútilo, embrasado.
Em frangalhos o meu querer – já roto –
Sucumbe ante esse desejar escroto.
Quedo prostrado ao chão... petrificado.

Passa, lasciva, uma menina apenas,
Seu perfume chove por toda parte
E esmaece todo o mundo ao redor,

Pousa, sem querer, mil poses obscenas.
Sorrir com o olho é a sua principal arte.
Artista, inflama em meu peito um queimor.



A flecha do tempo



Se busco, em tudo, a mais bela canção,
É que me falta a etérea melodia
Que suavemente fez um belo dia,
Aos arroubos, sangrar-me o coração;

Busco a brisa em total desolação
Que uiva triste como quem assovia;
Prezo o choro do riacho em agonia
Pois não pode ir em outra direção.

Vejo a pedra atirada infantilmente,
Na emergência do seu alvo, sofrer...
Bradar que saiam todos da sua frente.

Olho atrás: nada mais posso fazer.
Do bom e mau que fiz inconsequente
Tenho que com as consequências viver.


sábado, 27 de julho de 2013

Gênese


Rasgamos dos corpos, almas... aos imos,
Pois cismamos toda a vida por vê-lo.
Loucos, sonhamos um dia compreendê-lo.
Quem é esse bicho que nunca vimos?

Bicho arteiro, um artista, graxo limo,
Ébrio pirilampeante; fugaz elo.
Mesmo preso neste constante duelo,
Transfigura de força em desarrimo.

Ser tão diverso, mas no cerne um só
Da mesma gênese do ser humano:
De repente surge e de repente mingua.

Indo e vindo do universo... do pó,
Sagrado ser, libertador, profano,
Eterno e fugaz. Esse é o bicho-língua.


terça-feira, 23 de abril de 2013

Insônia




Neblina fria em plena madrugada;
Ruas gris e os pés descalços no cimento;
Horas de paz e desfalecimento
E minha mente vaga tresloucada.

Ergo a voz e ouço simplesmente nada
Além do calmo sussurro do vento
Que me derrama na memória o alento
De um exuberante floco da geada.

Um frenesi me é parceiro inato,
O sangue pulsa forte neste hiato,
Recompõe-me o semblante tristonho...

Logo a brisa me traz leve ao ouvido
Um hálito quente, úmido, atrevido.
Enquanto todos dormem, eu te sonho.