quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Defeitos da modernidade

Hoje vago, de defeitos repleto,
Pela terra disfarçando o aleijão;
Escondo a face desta aberração
Que se expõe em meu rosto tosco, abjeto.

Fiz um dia parte de um grupo seleto
De bons costumes, civilização.
Sou hoje escorraçado como um cão,
Açoitado e esmagado como inseto.

Educação é meu nome do meio,
Honestidade é o nome derradeiro,
Começo com desapego e verdade.

Mas o homem moderno em seu desnorteio,
Com praga em punhos e o dom agoureiro,
Transforma em defeito o que é qualidade.


domingo, 29 de janeiro de 2012

Paz



Quando, à força, descermos dos palanques
Estes “figurões” que mandam no mundo
E um grito surgir do âmago profundo;
Na dor, abrirem-se os olhos estanques.

Quando não houver mais gentis ou ianques,
Plebe raquítica ou nobre rotundo;
Quando a religião for o Amor fecundo
E a vida surgir no musgo dos tanques.

Quando os líderes sentarem-se à mesa,
O ouro das guerras findar a pobreza
E olharmos com ternura os animais.

Quando unirmos o coração e a mente
E o medo for uma lembrança dormente...
Assim teremos, simplesmente... paz.

   

Minha fortaleza



Abre teus olhos meu herói querido;
Vê, não podes cessar teus passos ainda;
Levanta e encara essa jornada infinda;
Sacode este teu corpo combalido.

Talvez o momento haja nascido
De trilhares esta sorte mal-vinda
Que com um amargo veneno te brinda,
Enquanto bebes, à traição, há rido.

Ergue-te de novo por mim herói.
Não fazes idéia de quanto dói
Ver tua luz esmorecer indefesa.

Luta contra esse chão frio, congelante;
Tira essa dor horrenda do semblante;
Seja ainda meu pai, minha fortaleza.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Mar revolto



Navego num mar revolto
Com a ponta dos meus dedos;
Mesmo frente a tantos medos,
Emaranho os cachos soltos.

Desvendo, assim, teus segredos;
Me vejo em sonhos envolto;
De um profundo transe volto
E miro teus olhos ledos.

Em cinzas íris me afogo;
Em puro êxtase me ponho
Quando nas chamas me jogo

E sofro um queimor medonho;
Em cinzas me põe teu fogo
E definho neste sonho.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O Verme



Chão frio, que aceita tão débil semente
Dos confins do corpo meu – raquítico,
Execrado! Imundo sangue cístico,
Cuide tu deste hediondo acidente!

Na vida hei passado tão somente
Devido a um vil desejo anafrodítico
De um ser inerte e outro paralítico
Em um ato animalesco e demente.

Aceita, ó terra, este ser que te implora;
Que, combalido, nem ao menos chora;
Que se contorce aqui no teu jardim.

Faz da minha carne tua, cara amiga!
De tantos outros vermes que abrigas.
Por que tu não tomas também a mim?!!


sábado, 1 de outubro de 2011

Ode a um mentiroso


Mentir faz, sim, parte da vida, amigo;
Como comer, dormir e respirar.
É uma arma de destruição sem par,
É, p’ra alma sofrida, o melhor abrigo.

Mentir faz sentir-se melhor consigo
Se fazes, do seu quente abraço, lar.
A consciência é só mais um lugar
P’ros fracos a procura de castigo.

A mentira, amigo, é um canto doce,
Uma fonte, um regalo e um escudo;
É andar seguro no mundo a esmo.

P’ros males é uma solução precoce;
Faz-se um suave remédio p’ra tudo
Quando todos crêm, até você mesmo.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Ninfa


Gosto de ver a sua boca entreaberta
Grunindo e gritando – puro desejo,
E, sufocando, foge do meu beijo
Quando, à unha, rasga as costas que aperta.

Gosto se de olhos fechados me oferta
A carne trêmula que tanto almejo.
Explodo em seu corpo e em êxtase vejo
Minha boca ser pela sua coberta.

Ai, amo quando ela exala seu cheiro
De paixão, tesão, de bicho no cio
Que rápido se mistura ao suor,

Inundando minha alma por inteiro,
Expurga completamente o vazio.
Vem e me toma, minha ninfa do Amor!